Mantendo o método, acabei de ver Pride & Prejudice ( Orgulho e Preconceito, 2005, Joe Wright ) e uma coisa se sobressai absolutamente do filme, além da Keira, a fotografia. Muito bonito, o tempo inteiro. Não só bonito, interessante, inteligente. Toda a movimentação de camêras, as tomadas longas, as cenas internas, especialmente na casa dos Bennets, são sensacionais. As paisagens, nascentes e poentes, esses são muitas vezes o prórpio sublime.
Mas o que realmente me chama atenção no filme, o que é mais único, é uma coisa que me interessa discutir tanto quanto fotografia e estética e que não mencionei antes aqui. Uma coisa que eu acho especialmente interessantes em filmes como esse, que, pelo menos a princípio, são realistas e digamos, “sérios”. Falo sérios assim porque é um conceito muito mais amplamente utilizado e percebido em obras descreditadas enquanto arte, ou mesmo entretenimento sério. Trata-se do tal Character Design. Eu traduziria com Projeto de Personagem.
Veja bem, uma coisa é você preparar o f igurino, estabelecer algumas regras de comportamento, aquele procedimento básico de qualquer coisa que se utilize de personagens e atores. Mas quando isso se potencializa, quando postura, modo de vestir, mesmo a maneira como um certo personagem vai ser fotografado, quando tudo isso trabalha junto e comunica, quando a mera imagem te diz muito sobre o personagem, isso é Character Design.
Algum exemplo? Mary. A irmã do meio. Aparece normalmente no fundo, sempre sempre sempre com roupas pardas, escuras, completamente destoante das cores claras e berrantes das duas mais novas e da seriedade, mas não soturnidade, das mais velhas. Parece pouco, mas faz muita diferença. Darcy sempre de azul, a postura reta, a fala um pouco embolada. Óbvio que muitas dessas características estão lá no romance de Austen. Claro, partir de um material tão bom facilita, alguém pode dizer. Mas traduzir isso, fazer essa adaptação de meios, ah! é muito mais complicado do que pode parecer. E tem todas as possibilidades de dar errado.
É uma questão de acerto fino. Tudo tende aos extremos. Ou a caracterização é contida demais e personagens tão tem profundidade, não tem personalidade. Ou passa do ponto e vira uma caricatura desagradável. Essa é a questão. Como boa parte do trabalho de pré-produção o Character Design é algo para não ser visto. Me lembra uma coisa que meu pai me disse várias vezes: é mais importante fazer falta do que ser notado. É exatamente essa a questão. Sem ele o filme, ou jogo, ou peça, o que for, se torna insosso, raso, e quando ele é concientemente notado, foi-se tudo por água abaixo.
Claro, claro! Existem casos e casos. Existem mil aplicação pra caracterização forçada. Meu último texto por exemplo. Sem os exageros Scanner Darkly não funcionaria tão bem, nesse caso a técnica entra na conta, a Rotoscopia depende disso. Mas a questão aqui é mais ampla, é sobre Fantasia. Fantasia no sentido de Fantástico, de algo além da Realidade, mas pouco além, algo que está logo ali, do outro lado deum véu. Criar e observar algo que quase poderia acontecer.
Quase. Essa é a questão. Por isso o valor do Character Design bem feito. Pra quem olha tudo faz sentido, tudo se encaixa, tudo é profundo e tem conteúdo. Mas além disso, um pouco além, pra quem vê, ainda tem mais. Tem um leve exagêro, que coloca aquilo além da simples realidade. Eu acredito que aí está o verdadeiro entretenimento e a grandeza do Cinema, da Literatura, dos Quadrinhos, dos Jogos, de Fantasia. E pra isso criar personagens interessantes é indispensável.
2 Comentários
RSS dos Comentários URI de Identificação do Trackback
Publicar um comentário

Eu, por exemplo, sou um personagem.
Perin! Miojo aqui. Gostei do seu blog. Dos dois, na verdade.
Tem um tempo já que vi Orgulho e Preconceito. E apesar de achar que é um filme meio que sobre nada (o foco está muito mais na profundidade dos personagens e na linda fotografia do que na história, que é, pra mim, sobre nada), assino embaixo dos seus comentários sobre o Character Design. Até porque essa constante nos próprios personagens até na literatura garantem uma caracterização melhor deles no cinema.
Muito bem. Continue a nadar!
Abraços!